25 de ago de 2014

DISCIPLINA











Os dicionários têm suas próprias definições de disciplina. Todas elas nos fazem lembrar de regularidade. Fazem-nos lembrar da formalidade, fazem-nos lembrar de escola. Isto é importante. É importante marcar um significado comum para que, parcamente, as pessoas estabeleçam comunicação razoável. Seria trágico termos de voltar ao nível das cavernas e convencionar tudo novamente. Ou voltarmos ao tempo mítico da torre de Babel e reaprender a comunicarmos uns com os outros. Ou ainda pior, cairmos, analogamente, naquela procura terrível de Averróis sobre o significado de “comédia” e “tragédia”, como denuncia o escritor argentino. Para além das convenções saudáveis de uma vida em comunidade, há o fato de as pessoas inventarem significados para as palavras já inventadas, consequentemente, já significadas.
Ao entrar na sala de aula um jovem professor expressa seu mantra interno: “Disciplina: a arte de fazer aquilo que tem de ser feito, mesmo que você não tenha nenhuma vontade de fazer aquilo que tem de ser feito.” Respira fundo e começa suas atividades cotidianas. Lembra que a diferença entre meninos e homens está no fato de “os homens fazer aquilo que tem de ser feito e os meninos só fazem o que querem”.
                                                        
Dos poucos resquícios de ritualização que sobraram parece que a “dádiva” de ser uma pessoa disciplina, de acordo com a definição acima estabelecida, é uma marca de iniciação ao mundo adulto. Porém, é arriscado dizer, e com certa probabilidade de estar certo, que o jovem índio não está nem um pouco entusiasmado em colocar seu braço dentro de um formigueiro para provar que pertence ao grupo: “a arte de fazer aquilo que tem de ser feito, mesmo que você não tenha nenhuma vontade de fazer aquilo que tem de ser feito.”.

A disciplina não é toda má. Convenhamos, ela imprime, de acordo com o que foi abordado, o reconhecimento nos indivíduos. Daí que um homem disciplinado é aquele que já passou pelo processo de suprimir sua vontade e está adequadamente inserido dentro de um contexto. Já está enraizado. Já está catalogado, já sabe qual é o seu devido lugar e, certamente, este tipo de individuação perante o coletivo é raramente alcançado, somente os humanos disciplinados conseguem atingir tal nível.

Esse significado de “disciplina” não está catalogado em dicionários. O que faz pouco importar se o que está escrito nestes parágrafos é certo ou errado. O reconhecimento e a validade epistemológica pouco importam se os mantras são efetivos. 

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