21 de jan de 2014

SOBRE FORMAÇÃO E INSTRUÇÃO

A história nos ensina que a educação já teve objetivos variados. Houve uma época em que a educação se voltava para a formação de um cidadão consciente. No período medieval a educação era mais voltada para o religioso, o estudo do latim e a literatura. Já no período renascentista os educadores se voltavam aos clássicos gregos e latinos, somando a esse modelo o resgate do conhecimento científico e experimental. Todos esses modelos de educação eram voltados para as elites, muitos poucos eram aqueles que tinham acesso ao mais básico: ler e escrever.



Arte que representa as artes liberais ensinadas nas universidades medievais. O trivium (via de três caminhos) consistia no estudo de três artes: gramática, lógica e retórica. O quadrivium, o nível de ensino após o trivium, consistia no estudo de quatro artes: aritmética, geometria, astronomia e música. Assim formando os sete saberes da Arte Liberal

Os gregos são os grandes mestres da humanidade. Em Paideia: a formação do homem grego, Werner Jaeger descreve o esmero e os valores que os gregos dedicavam ao ensino de seus jovens. Nessa época, educação era sinônimo de formação.


A partir do século VXII a revolução industrial mudou todo o sistema de produção europeu. A revolução industrial tornou a vida dos artesãos muito mais difícil. Os artesãos tinham em sob controle todas etapas da confecção de um produto: da matéria prima ao produto final, passando pelo conhecimento de como fazer cada parte do processo produtivo. Assim, as profissões eram aprendidas nas corporações de ofício, no qual o mestre passava aos aprendizes todos os conhecimentos para a produção dos materiais. A educação, já nessa época, tinha um cunho voltado para o mercado de trabalho muito forte, no entanto, ainda era reservado para a crescente burguesia.Um produto que era feito nas manufaturas era bem mais caro, comparado com aquele que era feito na fábrica, além de demorar muito mais para ficar pronto. Desde modo, os artesãos foram perdendo espaço para o novo modelo de produção que a revolução industrial impunha.



Arte que mostra como funcionava uma Casa de Ofício


Com a mudança causada pela revolução industrial e os artesãos perdendo força se fez necessário outro modo de ensinar as pessoas a trabalharem: daí surgiu a escola moderna como conhecemos hoje ( sabemos que há muitos mais elementos do que isso). Nesse novo modelo o conhecimento é fragmentado, assim como os processos produtivos: há o professor superespecialista naquela disciplina, que só ensina aquilo, para no final formar outros adultos que sejam especialistas somente em um assunto. As pessoas são "educadas" para fazer somente uma coisa e isso vai defini-las pelo restos de suas vidas. 



A educação ideal pós-revolução industrial acredita que, você só poderá ser bom em uma coisa, por exemplo, apertar parafusos



Assim, para explicar   a construção de fábricas ao redor do mundo possível, dois problemas precisaram ser resolvidos: a necessidade de trabalhadores para produzir e a necessidade de consumidores para suprir a super-produção.

A solução para resolver o problema da falta de trabalhadores foi a criação de escolas públicas, e para resolver o problema da super-produção, fomentou-se o consumismo. A escola pública, surge então como espaço de adestramento e instrução.  A formação de seres humanos é deixada para segundo plano. Ao concluir o seu curso (seja lá qual for), você não se tornará uma pessoa melhor, mais sábia. Não, a instituição lhe entregará um certificado atestando que você é apto para ser um professor, mecânico, administrador de empresas, médico, engenheiro etc. Isso é, se você frequentar a escola até o fim.

Desde o início da infância, a criança já vai se acostumando com a ideia das fábricas. Nas escolas já se ensina o ambiente de mercado, no qual, o mundo é guiado: o aluno é substituível como uma peça de máquina, assim como o professor.

É importante que as pessoas aprendam certas coisas, mas isso isoladamente não é suficiente, é apenas um primeiro passo. Mas passar muitos anos em uma instituição deveria ser  muito mais do que o aprendizado de uma profissão, o que às vezes nem é entregue ao aluno; em muitos casos os alunos não aprendem nada mesmo: nem sequer se adequar as regras.

A formação tal qual os gregos idealizavam não é mais atraente. Hoje há um zelo muito maior pela instrução: formação de bons profissionais. Inclusive muito se defende uma educação empresarial e há governos que investem muito em propaganda e programas para o foco na educação profissional: criação de mão de obra abundante, consequentemente, barata. 



Acreditar que, a educação está aí somente para cumprir esse papel é um desastre, do ponto de vista da formação. Pois a finalidade deste tipo de sistema é a construção de uma sociedade projetada para o consumo. E o consumo exacerbado não poderá, de forma alguma, ser algo que ajude as pessoas a encontrarem seu verdadeiro potencial. Desde modo a educação se afasta do ideal de arte liberal, ao invés de liberar, somente será mais um elemento para alienação generalizada.


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